Tiramissú, o doce libertino

Sedutor e envolvente, o mais amado dos doces italianos, o Tiramisú, não faz parte da grande e “vecchia” cozinha italiana. Sua história é de um passado bem recente. Não há nenhuma referência sobre ele em Storia della Cucina Italiana, do grande conhecedor de gastronomia Massimo Alberini, como tampouco nas 1200 páginas do livro que para os italianos é o evangelho da culinária- Le ricette regionali italiane de Anna Gosetti della Salda - ou em qualquer livro histórico de cozinha. Tal lacuna se deve provavelmente à sua origem e ao lugar onde era servido.

O doce foi apresentado ao mundo na década de 60, pelo restaurante Da Alfredo, em Treviso, na região de Vêneto, primeira casa aberta pelo grupo Toulà, que nunca reivindicou sua criação, pelo contrário, afirmou que a receita foi resgatada da intimidade dos bordéis italianos.

Os bordéis, na Itália, eram chamados de “case chiuse”, que significava literalmente casas fechadas, porque a lei não permitia abrir as janelas. Esses estabelecimentos geralmente tinham cozinhas bem equipadas e com a presença de um “chef” confeiteiro.
O nascimento e o batismo do “Tiramisú” ocorreram quando a anfitriã de uma dessas casas começou a receber seus clientes com a iguaria.

Ao entregá-la dizia: “Anda, saboreia com carinho, estou te dando um doce que ‘ti tira su’...” Eles entendiam a mensagem, principalmente as últimas palavras, um doce que te levanta.

A sobrevivência do Tiramisú ficou ameaçada em setembro de 1958, quando entrou em vigor a Lei Marlin, que fechou todas as casas de tolerância da Itália. A senadora socialista Angela Marlin, au­tora da lei, acreditava que as pratica­ntes da profissão mais antiga do mundo, sem ter um lugar fixo para trabalhar, procu­rariam outro modo de vida. Pesquisas recentes afirmam que o Tiramisú é a sobremesa mais conhecida do mundo.

A verdadeira e única receita consiste simplesmente em cinco ingredientes: ovos e açúcar batidos, biscoitos tipo inglês ou champanhe, molhados em café expresso com cacau em pó. Mais tarde foi incorporado o mascarpone (queijo cremoso, branco, ligeiramente ácido, da região da Lombardia, produzido de leite de vacas alimentadas com ração especial de ervas e flores). Existem mil e uma variações da receita. Mentes criativas mudam tanto os ingredientes do Tiramisú, que chegam a ameaçar sua identidade, preser­vando às vezes só o nome. Doce equívoco...

Muitas são as lendas sobre o misterioso doce de virtudes afrodisíacas. Uma delas reza que o Tiramisú nasceu no século XVII, quando Cosimo III de Médici (1639-1723), após assumir o cargo de grão-duque da Toscana, foi passar uns dias em Siena. O governante era uma verdadeira formiguinha, adorava tudo que tivesse açúcar. Os confeiteiros sienenses decidiram fazer, em sua honra, um doce exclusivo que representasse suas características de nobre: grandi­osidade e simplicidade. O grão-duque adorou e levou a novidade para a corte, onde conquistou a todos. Mas não há provas de que a receita seja a mesma do Tiramisú, prevalecendo, assim, a tese de que este nasceu mesmo nas “case chiuse”.

O doce de berço libertino ganhou fama interna­cional e foi parar nas telas de cinema como personagem do filme argentino “El hijo de la novia”, dirigido em 2001 por Juan José Campanella, com Norma Aleandro, Hector Alterio e Ricardo Darín. Disputou o Oscar, como melhor filme estrangeiro.

Hoje, o Tiramisú, é a sobremesa mais elegante e consumida pelos italianos. Sua fórmula não foi registrada e a receita saída dos bordéis anda livre, leve e solta pelo nosso universo.

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